Um idiota

Muito me identifiquei com uma palestra de Chimamanda Adichie, e os perigos da história única. Acho que isso sempre me foi apresentado e eu nunca tive o cuidado de perceber. A gente sempre toma como verdade e continua repetindo coisas que escutamos e não raciocinamos.

Quando eu era adolescente, quando alguém usava alguma roupa feia, a gente chamava “coisa de baiano”. Nessa idade eu acho que nem conseguia apontar a Bahia no mapa, mas a expressão carregada de preconceito era sempre usual.

Uma vez, estava na casa de um primo, e, na sala com a tia dele, nós dois, em algum assunto que nem me lembro, dissemos em uníssono: – que coisa de baiano!

Lembro que a tia dele olhou para nós e disse algo mais ou menos assim: – O que é coisa de baiano? Eu sou baiana!

Eu lembro de ter me sentido um bosta, mas também foi a primeira vez que eu percebi que atrás daquela expressão haviam pessoas, uma cultura, que eu não saberia identificar ou falar sobre, mas que aquilo poderia machucar alguém.

Nunca antes, eu acho, tinha pensado em como as pessoas recebiam isso vindo de mim. Para quantos baianos eu já teria dito aquilo? Quantas pessoas eu ouvia repetir aquilo? Alguma delas eram de fato descendentes de baianos, e diziam aquilo para esconder suas origens?

Aquilo me marcou profundamente. De alguma forma tentamos justificar que não era algo preconceituoso, que era apenas algo feio que alguém vestia, mas não teve jeito. Sua tia, Mirian, ficou visivelmente chateada, mas teve o controle de nos explicar como aquilo poderia ser ofensivo para outras pessoas. Obrigado, tia!

Depois daquilo, ainda que algumas vezes me escapava a expressão, eu lembrava da situação e consegui, depois de algum tempo, parar de dizer aquilo, e comecei a pensar, não tanto quanto eu gostaria, que eu muitas vezes era um belíssimo de um idiota! Outra identidade que perdurou por alguns anos comigo.

Coloco isso como um exemplo, mas posso dizer outros tantos. Sem nunca ter ouvido Renato Russo, peguei emprestado a história que ele poderia ter feito uma música pensando em outro homem, e seria uma “música de viado para outro viado”. Lembro de ter tomado uma mijada de um outro amigo meu, e o quanto aquilo era idiota de se pensar.

Ainda hoje estamos cercados de histórias únicas que nos chegam, muitas vezes por expressões e dizeres carregados de preconceitos. Ou que isso é um discurso que querem que a gente se aproprie, sem nunca raciocinar sobre. Como desconstruir essas visões, que são espalhadas com tanto fervor e tantas vezes repetidas?

Bjus mil!

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